sexta-feira, 29 de abril de 2011

Livros e pessoas

Antes de mais, gosto de livros. Muito. De literatura, sim, mas principalmente de livros. Gabo-lhes as capas, as boas edições, o tipo de letra, o cheiro do papel, as páginas prontas a folhear pela primeira vez. Depois, o que eles significam: gostar de livros é gostar de muita coisa ao mesmo tempo. É, por exemplo, gostar de decoração: que melhor sugestão existe para dar cor e classe a uma casa? E depois, fundamentalmente, gosto de livros porque gostar de livros é também gostar de pessoas: elas são o espelho do que lêem. E os livros, quando bons, são também um retrato das pessoas. É por isso – por gostar de livros e de pessoas, de pessoas e de livros – que acho natural querer trabalhar no meio deles. Por entre pessoas e livros, livros e pessoas.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Geracion à la rasca - ou assim

A Geração à Rasca portuguesa - porque as há de outras nacionalidades, naturalmente, com outros nomes - explicada ao mundo em castelhano. Via Dixiti, magazine sediada em Buenos Aires.

"Todo comenzó en las redes sociales. Cuatro jóvenes portugueses, de poco más de 20 años, sintieron que sus preocupaciones debían ser escuchadas. A su escala, estos cuatro jóvenes son el espejo de su generación: no tienen empleo o si lo tienen es precario; sin posibilidades o esperanza; sin perspectivas de tener condiciones para formar una familia. Con este panorama, decidieron convocar a las personas (de 20 a 35 años, generación conocida en Portugal como la Geração à Rasca) que compartían sus mismos problemas, a una protesta en la calle.

Y aquí entraron en juego las redes sociales: la capacidad movilizadora de cuatro jóvenes anónimos y absolutamente desinteresados (sin ligaciones partidarias u otras afinidades) puede parecer nula. Pero no lo fue: a través de Twitter o Facebook, jóvenes y no tan jóvenes comenzaron a asociarse a la protesta, que inicialmente fue pensada en realizarse en Lisboa pero se fue expandiendo luego para otras diez ciudades del país (como Porto, Coimbra o Faro) y hasta fuera de Portugal (Barcelona, España).

Los números son aproximados: en total se estima que el 12 de marzo cerca de 300 mil personas salieron a la calle en Lisboa, más algunos otros millares en otras partes del país. Convocados a través de las mencionadas redes o del tradicional boca en boca, hubo gran variedad de concurrentes: jóvenes universitarios, becarios de investigación, gente de la tercera edad sin reforma, madres solteras, trabajadores precarios, desempleados o simplemente ciudadanos que sienten un futuro poco aventurero (y también el de sus hijos) o tal vez amenazado. Todos, en común, compartían un sentimiento: la necesidad de expresar su descontento y mostrarle al poder político que algunas cosas deben cambiar. El color, entre los manifestantes, apareció con carteles, música y tambores.

¿Qué resultará de esta protessta? Nadie lo sabe. En tiempos de pre-elecciones legislativas, con un gobierno resignado que pidió ayuda externa al Fondo Europeo de Estabilización Financiera, es sabido que quien consiguiera aunar las fuerzas y el anhelo de este descontento general puede obtener un buen resultado para formar un gobierno. Sin embargo, la característica de los electores más jóvenes es precisamente no creer en los partidos políticos existentes –de hecho, creen que en ellos reside la responsabilidad de haber llegado a este punto crítico-.
“Política sí, partidos políticos no”. Este podría ser el nuevo lema de una generación que se permite pensar de manera diferente a Portugal y parece mirar para la ciudadanía con otros (nuevos) ojos. El futuro del país, sumido actualmente en una crísis financiera grave, dependerá de la iniciativa y el ejecicio de una ciudadanía joven."

Se disser o que penso sobre este blogue a minha carreira acaba agora


Há dias assim. Amanhã é outro. Pode ser que se sobreviva.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Visões do País (2)

Um olhar diferente, a mesma acutilância. Pescado no mesmo sítio. O País, visto por Miguel Real.

"O povo continua rude, ignorante e crédulo. Um milhão de portugueses vai a Fátima todos os anos. Dois milhões vão aos estádios de futebol fanaticamente, com uma "clubite" de raiz tribal e divina. (...) As pessoas vão ao endireita e ao bruxo, mas não vão ao médico (...)."

"O professor Cavaco Silva é a pessoa mais ajustada às circunstâncias. Ajusta-se às conveniências da cena política e social a cada momento, é um homem sem ideias. Está há 25 anos no poder, mas se há 25 anos havia dois milhões de pobres, hoje há dois milhões de pobres."


domingo, 27 de março de 2011

Visões do País

O País, visto por quem o vê muitas vezes de longe. E muitas vezes, quem vê de longe, já se sabe, vê melhor. Tiago Salazar, aqui:

"O país está a saque, mais do que nunca, e muito lamento que de tanto termos de viajantes não nos dê para aprender com as viagens. Sermos um país pobre é de sempre, sobretudo de espírito. Saímos há 500 anos atrás da riqueza. E assim continuamos, ultrapassados pelos estónios que mal ultrapassam o milhão. Alguns safaram-se em África, os mais cabeçudos e negreiros. Dar, por cá, só dá o negócio dos bifes. Vive-se, a solo, da capacidade de trabalho e do improviso. Vive-se com dinheiro incerto, e, estacas de um futuro precário, num país anedótico, de bimbos e pacóvios. E depois, acreditar, acreditar, ousar, ousar, contra os papões marchar."

sábado, 12 de março de 2011

Um país à beira de um ataque de nervos

Um protesto. 300 mil pessoas. A mim, comoveu-me, como já referi a uma ou outra pessoa. Mas aqui, tarde ou cedo - e foi mais tarde que cedo, convenhamos -, chegaríamos sempre. Já o Zeca cantava "Não me obriguem a vir para a rua gritar". E eles vieram. E gritaram. Embora não tenham vindo senão (quase) "obrigados" -como o Zeca também previu. Mas aqui não há vitória.
Isto comove, atenção: pessoas com cartazes a dizer "Experimentem viver com 500 euros" ou "Experimentem viver à rasca"estão mesmo a sugerir (quem não sabe, e há muito quem, infelizmente, saiba) que se experimente a angústia em que eles vivem 365 dias por ano. E quem, de filhos ao colo, reclamou um futuro melhor para eles (já não por si), também o fez sincera e legitimamente. E isto, porque isto sou eu e tu, sensibiliza. Comove.
Mas não há vitória. E se calhar não há vitória precisamente onde alguns a viram: nas 300 mil pessoas que saíram à rua. São muitos. São demasiados. Significam demasiadas coisas. É que a única coisa comum a estas 300 mil pessoas é serem portuguesas - ou estarem em Portugal, em última instância. Tudo o resto é diferente. Cada um reclama coisas diferentes.
Não deixa de ser irónico o facto de numa manifestação se juntarem pessoas apolíticas ou apartidárias, mas também de direita e de esquerda, militantes ou simpatizantes do PSD, CDS como do Bloco, PC e até, imagine-se, do PS. Ora isto traz um problema acrescido: sendo claros, muitas destas pessoas manifestaram-se umas contra as outras.
Embora a precariedade ou as dificuldades económicas de vária ordem sejam comuns a uma grande maioria, o facto é que cada um dos 300 mil reclama coisas diferentes e soluções diferentes. E pior: apontando os culpados da situação a que o país chegou, enganam-se redondamente. Os culpados não são os políticos. Embora também sejam, claro. Mas quem são os "políticos"? Que classe abstracta é esta? Deputados e governo, ok. Mas e os homens da nossa terra, os presidentes de câmara, os presidentes de junta de freguesia, também são culpados? À sua escala, são mais sérios ou competentes que os deputados ou o governo? E se alguns dos 300 mil presentes na manifestação tivessem sido "políticos" - e já excluindo a competência técnica - teriam tido mais bom senso, sentido cívico, responsabilidade, noção de serviço público do que os "políticos"? A resposta a esta pergunta - a avaliar pelos "políticos", mas também pelos empresários, pelos funcionários públicos, pelos trabalhadores por conta de outrém ou dos estudantes - é não. Porque políticos somos todos - é uma questão de oportunidade. Eles - os políticos, os maus, os culpados disto tudo - somos nós. Os políticos são maus? São. E os empresários, são bons? E os funcionários públicos? E os trabalhadores por conta de outrém? E os estudantes?
Naturalmente, há excepções. Na política, também. Mas o verdadeiro problema do País - e é um problema crónico, e que não está sequer em vias de resolução - é que nós, enquanto portugueses, enquanto cidadãos, não somos melhores do que os políticos como políticos. E assim, não há protestos que nos salvem.